Demorou um ano e sete meses para ela descobrir que não sabia o que era amor. Se for ver, um ano e sete meses não é nada. Você deve estar pensando que “há pessoas que viveram uma vida inteira e nunca descobriram o que essa palavra quer dizer”. Dane-se. Para ela, que estava em um relacionamento sério, que levava café na cama junto com as bolachinhas favoritas dele, um ano e sete meses era tempo demais.
Porque pra ela, que nunca tinha passado pela experiência, a não ser no meio familiar, aquilo era amor: as bolachinhas, o ato abnegado de levantar no meio da noite para lhe entregar o leite morno, fazer massagens quando ele sentia dor, ir a todos os festivais de cinema alternativo que ele queria. Amor era entrega. Incondicional.
Aí, belo dia, começou. Foi uma reação pequena, aquela vontadezinha de falar “não quero ir” quando ele a chamou para um camping. Obviamente ela não queria ir, mas pensou que sua recusa mostraria uma possível falta de amor de sua parte. Aquela vontade apareceu outras vezes, cercada de receio e indignação. Plantou-se a dúvida. Será que realmente o amava? Afinal, quem ama faz tudo pelo outro. Amar é um sacrifício em prol de algo maior.
Mas ela não se sentia sempre disposta a sacrificar-se. Porque só ela fazia isso? Porque ele não ia aos eventos que ela queria, aos chazinhos com as amigas dela? Isso queria dizer que ele não a amava, era isso?
Foi atrás de respostas, lembranças, referências de vida. Lembrou-se da mãe, e percebeu que ela também era da turma do leitinho morno e das bolachinhas. O pai era o verdadeiro rei do lar, e ela se indignou. Pensou em músicas e em vários filmes em que os amantes lutam para ficar juntos, em que eles parecem se aceitar sem medo, sem ressalvas. Nunca aparecia alguém se recusando em ir a um camping. O que fazer?
Como sempre, refugiou-se na literatura. Releu algumas obras. Lembrou-se do livro de Jane Austen, do momento em que o lera pela primeira vez, completamente indignada quando Darcy declara-se para Lizzie, numa fala angustiada e cheia de poréns. Na época ela pensara: “que raio de declaração é essa? Quem é que ama com poréns?”
E, ao revisitar esse clássico, entre tantos outros, ela descobriu a resposta para essa pergunta: todo mundo. Todos aqueles ‘poréns’ e ‘mas’ fizeram sentido, pela primeira vez na sua vida de leitora, porque ela vivia aquela mesma experiência. E ela entendeu que o que seu coração sentia era, de fato, amor. Ela escolhia amá-lo, apesar de tudo. O amor não nos faz cegos aos defeitos do outro, afinal. Ele nos faz perceber que, mesmo com tudo que não gostamos tanto no outro, ficar junto vale a pena. E que isso não quer dizer literalmente fazer tudo junto, é também ter um tempo pra si, é também saber dizer não, é ter liberdade de ficar porque se quer.
O amor não pode demandar a total transformação do outro para nosso agrado ou comodismo, é verdade. Mas também não pode demandar a desistência ou anulação de si.
Once up on a time there was a girl who became a woman just in time to know what love really is.
To happinha por vc, dearzinha.
Bjo, bjo, bjo